Quem vai casar?

Sentou-se em frente a mesa do professor sem muita convicção. Professor, preciso te pedir algo. Pois pida, disse-lhe em um quase sorriso. Era seu costume falar certas palavras em português errado. Não por ignorância, mas por estratégia. É que ao proferir pobrema diante de um problema, a aura catedrática, muitas vezes inibidora de um diálogo mais fluído, evaporava-se em nuvens de descontração. Dizia ostra no lugar de outra, bão no lugar de bom. A faca era de dois legumes e o combinado, cãobinado. Tomate-ca-mente era automaticamente e, de trocadilho em trocadilho, de erro em erro, a comunicação se dava sem prejuízo. Fazia por graça, ainda que um ouvido ou outro, inadvertido, achasse um despautério professor falar assim. Então, professor, seu trabalho, aquele em grupo, que o senhor sorteou semana passada… As reticências, o olhar cabisbaixo e os vinte anos de sala de aula profetizavam o pedido de dispensa, restava saber o motivo, razão ou circunstância. Tô ligado, disse o professor para abreviar o suplício. Da lista de possibilidades, é sabido que a morte não se anuncia com semanas de antecedência, logo descartou o velório de alguma tia lá no interior do Paraná. Tamborilando os dedos sobre a mesa ao ritmo da marcha imperial, disparou. Quem vai casar? As sobrancelhas arqueadas e a luminosidade no rosto vieram seguidas de um sonoro eu. Eu, professor. Na sexta no civil, no mesmo cartório no qual sua futura esposa trabalha de recepcionista, logo pela manhã Sábado no religioso, para agradar a família dela, lá no interior do Paraná, na igreja matriz, bem a tardinha. Os trâmites para o casório já vinham de um ano antes. O aperto financeiro e a dificuldade de reunir toda a parentada fez com que a data coincidisse com a apresentação do trabalho da faculdade. É coisa do zodíaco, diziam-lhe os amigos solteiros. Antes evitar uma DP que afivelar-se nas coleiras do matrimônio. Sabiam que perderiam o goleiro das noites de terça para a futura esposa e o Master Chef. Já os familiares, agarrados à última esperança de finalmente ver-lhe casado, mandariam às favas o professor, tudo dentro das normas da ABNT, que fique claro. Segundo minha avó, disse-lhe, o homem nasce, cresce, fica bobo e casa. Pois é, professor… As reticências, novamente elas. O aluno esperava uma resposta. Era uma faca de dois legumes, o professor poderia dizer-lhe ema ema, cada um com seus pobrema. O professor sabia disso. A pausa dramática se estendeu por mais alguns segundos, o suficiente para uma gota de suor formar-se no canto esquerdo daquela têmpora universitária. Sem pobremas, meu caro. Trocamos com o grupo anterior e, tomatecamente, seu grupo fica para a ostra semana. Cãobinado? Oxi, professor. O alívio muscular podia ver-se em fluidas ondas sob a pele do rapaz. Desejou-lhe um bão casamento enquanto observava-o flanar dois centímetros acima do solo. De volta aos teclados do seu computador, à crônica que digitava quando fora interrompido pelo noivo atormentado, percebeu uma sombra diante de si. Antes que pudesse concluir a digitação desta linha, a sua frente, sem muita convicção, sentou-se outro aluno. Pida!

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Tocaia…

Sentamos para beber uma cerveja. Na mesa ao lado, quatro cavalheiros trocavam confidências. Talvez pelo alto teor alcóolico em suas correntes sanguíneas, o volume de suas vozes também estava elevado. Um deles, na casa dos seus cinquenta e tantos, se gabava do fato de sempre camuflar seus deslizes com a amante. A esposa, certa vez, encontrara um vidro de esmalte que não lhe pertencia no carro do marido. Com voz de barão, colocou-a no seu devido lugar. Ora, onde já se viu, aquele esmalte poderia ter vindo das mais inusitadas situações e, obviamente, nenhuma delas relacionada a existência de uma outra mulher. Rapidinhas nas pousadas urbanas, aquelas cujo movimento no horário do almoço concorre com os drive-thru dos fast-foods. Dia desses, por uma casualidade, estacionei em frente a um desses estabelecimentos justamente na hora do almoço. Foram menos de quinze minutos, o suficiente para ver, além do entra e sai de carros, rostos em esquiva toda vez que davam com a minha cara. Fazia o calor típico de um início de tarde quente em Sorocaba, eu mantinha todos os vidros do meu carro abaixados. Posicionado de cara com o portão da saída de um desses sei lá o nome, motoristas e acompanhantes, incautos, ainda risonhos, fechavam seus rostos ao se depararem com meus ray-ban escuros, barba mal feita e sobrancelhas de lobisomem. Meu deus, será um detetive particular, certamente foi o que se passou pela cabeça da jovem senhorita do sedan vermelho. Não, imagina, é algum vagabundo, detetives são discretos e eu estava mesmo era a me divertir. No utilitário de luxo, o motorista, ao dar de cara com o este Ed Mort de araque, titubeou. Embicou para a direita, deu seta para a esquerda e saiu cantando pneus enquanto sua passageira enfiava o rosto na bolsa. Talvez tenha sido numa dessas situações que o vidro de esmaltes do início de nossa conversa tenha vindo a cair sob o banco do cinquentão. Vá saber! Pois bem, voltando a minha tocaia incidental, houve o casal de moto, feliz e faceiro, o motorista até me deu um aceno. É que nem sempre as pessoas estão a cometer adultérios. Nada pude ver da pick-up insulfilmada que entrou logo depois da saída de um Uno de firma, daqueles com escada e tudo, certamente era o rapaz que conserta os ares condicionados, visto que ia solitário e na sua porta pude ler algo que terminava com “tec”. Passados os quase quinze minutos, dei-me conta que estava esperando no lugar errado. A mensagem no celular, aonde você está?, me trouxe a realidade. Sem saber, três minutos após a minha saída e a pedido do dono do estabelecimento, uma viatura da polícia chegou ao local para investigar o investigador casual, inadvertido, que já havia, para seu bem, partido.

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Círculo do Livro…

Certa vez, andando pelos calçadões do centro, encontrei uma simpática livraria. Círculo do Livro, dizia o letreiro. Entrei e passei muitos minutos, quase um hora eu diria, olhando capas, contracapas, lombadas. A atendente, dona de um sorriso ímpar, me deixou à vontade para explorar o peso, o cheiro, a textura dos livros. Dentre centenas de possibilidades, dei de encontro com Drácula. Nessa época, meu interesse pelo oculto, pelo sobrenatural, pelas forças das trevas era pouco mais que uma curiosidade infantil potencializada por filmes de terror que passavam no fim de noite. Drácula, a figura do vampiro, do conde de olhos fundos, nariz afilado, queixo anguloso e cabelos empastados de gomalina — impossível não lembrar dos saudosos Bela Lugosi e Christopher Lee — me chamou atenção. Escrito por um tal de Bram Stoker, a capa ilustrada com um clássico conde Drácula prestes a morder o pescoço de uma bela mulher em decotes provocantes foi fator decisivo para que eu conduzisse a mim e ao livro ao balcão. Vou levar, eu disse com convicção, mesmo que eu sequer tivesse atentado para o preço. E o preço sequer foi problema, o problema foi a pergunta feita pela moça do sorriso bonito: qual o seu código de associado? Associado? Sim, o Círculo do Livro é um clube de leitores e as obras são vendidas apenas aos associados. Mas eu não sou sócio, respondi embebido pelo embaraço. Você é maior de idade, perguntou-me já sabendo, pelo rubor do meu rosto, que não. Eu poderia fazer o seu cadastro, mas é preciso ser maior de idade. Drácula escorregava pelas minhas mãos enquanto minha cabeça baixava. Murmurei um obrigado e, sem conseguir olhar para a moça, e arrastei-me para a saída. Pode parecer bobo, mas aos 16 anos de idade, aquela fora a primeira vez que eu me interessei por um livro espontaneamente. Tudo o que tinha lido até então havia sido por obrigações escolares. Drácula não, Drácula foi puro desejo. Antes que eu abrisse a porta, a moça me chamou. Posso passar ele no meu cadastro de funcionária, assim você pode levar o livro. A imagem dela sorrindo e me estendendo o livro deveria ter sido o suficiente para eu tê-la pedido em casamento, mas eu era apenas um garoto que como poucos, gostava de Ramones e computadores de 8bits. Ela fez os tramites burocráticos e, por fazer a venda como se fosse para ela mesma, obtive o desconto de funcionários. Paguei o livro, disse o obrigado mais sincero que a minha antissocialidade permitiu e corri para o ponto de ônibus. Até hoje não sei o nome dela. Nunca mais a vi. Drácula continua até hoje na minha estante. O primeiro de algumas centenas de livros que passei a devorar por vontade, por curiosidade, por prazer… Obrigado, moça do sorriso ímpar!

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Quermesse…

A quermesse do bairro, em épocas juninas, trazia consigo o cheiro de pólvora. Como todos os garotos da rua, pelas manhãs de domingo íamos ao catecismo. Ouvíamos estórias dos tempos do zagaia. Numa delas, um cara barbudo saia distribuindo chutes e ponta-pés nos comerciantes do templo. Alguma coisa que ver como fazer negócios no entorno da igreja. Depois da catequese, íamos à missa. Mais estórias. Durante o resto do do domingo o protocolo era sempre o mesmo. Macarrão da mama, coca cola da mercearia do Mingo, pudim de leite da vó. Trapalhões, programa Silvio Santos. Repeteco do pudim de leite da vó. A noite, no entorno da igreja, toda sorte de barraquinhas vendiam guloseimas e diversões. Pesca, roleta, cuscuz, arroz-doce, quentão. Três quarteirões antes da igreja, numa minúscula lojinha mal iluminada, um arsenal de bombinhas, traques, busca-pés, rojões e biribinhas. Fogos caramuru não dá xabú, esse era o lema. Dos dez cruzeiros ganhos, cinco eram suficientes para encher os bolsos daqueles objetos do terror. Bolsos que poderiam por si só mandar para os ares umas tantas latinhas de extrato de tomares, tamanha era a quantidade de pólvora que neles ficava depositada. Munidos do pequeno arsenal bélico, nos embrenhávamos por entre os adultos. Uma rodinha, alguém acendia o isqueiro, a combustão do pavio dispersava a roda rapidamente. Três, dois, um. BUM. Jesus-Maria-José! O estouro sempre assustava as beatas compenetradas no giro da roleta. Algum adulto logo identificava os terroristas mirins apontando-nos o dedo seguido de palavras se só podiam dizer no lado de fora da igreja. Na periferia da festa, fuçávamos as latas de lixo em busca de módulos lunares. Uma “das fortes” era posicionada na guia de paralelepípedos. Sobre ela, uma lata de pomarola estrategicamente colocada de forma a absorver em seu interior a potência da explosão. Mais uma vez o isqueiro roubado do maço de cigarros de algum familiar entrava em ação. Três, dois, um. É, deu xabú! Desde a mais tenra idade já sabíamos o sentido da expressão propaganda enganosa. Pega outra. Aperta o fundo, pra garantir. Duas voltas de durex, para potencializar. Agora vai. Isqueiro, cadê o isqueiro. Ajeita a latinha. Três, dois, um. BUUUM. Feito engenheiros da Nasa, comemorávamos os talvez dois ou três metros de vertiginosa subida da lata de pomarola. Um pequeno estrondo para a humanidade, mas uma baita diversão para a molecada. Moleques lazarentos. Huston, temos um problema. A lata, na sua reentrada na atmosfera, atingiu a motoca de alguém. Correria. Como vietcongs, embrenhávamo-nos por debaixo das barracas, camuflados por toalhas de renda. Dissipado o quiprocó, juntávamo-nos na curva da escadaria de acesso à igreja para contabilizar o arsenal. Eu tenho três da forte e duas da fraca. Eu tenho duas fortes. Eu tenho quatro busca-pés e três da fraca. Enquanto as meninas prendadas distribuíam as prendas na barraca de pesca, pescávamos toda sorte de coisas para explodir. Tubo de plástico, lata de óleo, tijolo baiano, casca de banana. Os estouros se ouviam aqui e ali sempre seguidos de um resmungo, um reclamo, uma jura de que queimaríamos no fogo dos infernos. Para terminar, juntávamos as sobras, desmontávamos as bombinhas, fazendo com a pólvora finas linhas como nos filmes de espionagem. O cheiro de pólvora se misturava ao do quentão naquelas noites frias de junho.

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Sala de Espera…

Sete horas e vinte e seis minutos de uma manhã de qualquer-feira. Trinta e dois. Trinta e dois. Entre os dedos do jovem de chinelos, um pedaço de papel amarrotado. É o meu, moça? Ainda não. O semblante cansado do senhor de camisa azul contrasta com a energia do menino de short vermelho que rasteja por entre os bancos. Trinta e seis. Trinta e seis. Quatro beatas fazem roda na antessala. Nada lhes escapa. Onde já se viu, deixar criança solta assim. E aquela, aposto que está grávida. De novo, completa a companheira. Trinta e nove. Trinta e nove. O enfermeiro de olhos castanhos chama alguém. Ambos discutem. O enfermeiro leva as mãos à cabeça, gira sobre o próprio calcanhar. A palavra lhe para no meio do caminho, algo entre a laringe e os dentes. Um sopro de ódio lhe escapa. Quarenta e um. Quarenta e um. A senhora de óculos bifocais me pergunta onde se pega a senha. Aponto para o lado. Pega para vovó, diz ela para a adolescente que a acompanha. A menina da tranças serpenteia por entre as gentes, cruza com o menino de shot vermelho e retorna com o papel. Setenta e sete, ela me mostra. O seu é qual? Nenhum, eu digo. É que nessa história sou apenas o narrador. A minha frente, outra senhora, a senhora de cabelos brancos. Aproveito o momento para me retirar da trama, cedo meu lugar a senhora de cabelos brancos que de pronto compara sua senha com a senhora de óculos bifocais. Quarenta e três. Quarenta e três. Movo-me para o canto, próximo à coluna. O ventilador range mais que venta. Sob ele, duas garotas conversam animadas. A de brincos de pena mostra a de batom vermelho as fotos do fim de semana. Dois médicos atravessam o saguão. Um deles ajoelha-se para mexer com o menino de shot vermelho. Parecem conhecidos. O outro observa o ventilador. Seu olhar cruza com o do senhor de camisa azul. Há entre eles uma sutil comunicação. Cinquenta. Cinquenta. Meus olhos repousam sobre os rostos de cada uma daquelas pessoas. Tento guardar detalhes. Imagino suas vidas. Me perco em possibilidades de os descrever, de como tramá-los nos meus textos. Absorto, cansado pela espera, meneio a cabeça, como quem busca relaxar a musculatura do pescoço. Num lance, vejo-a colada ao teto. Sua mortalha negra, sua foice polida. Seu rosto se perde na escuridão, mas eu sei que ela sorri. Cinquenta e seis. Cinquenta e seis. Vamos! A voz de minha companheira me tira da hipnose. Demorei muito? Não, não. E antes que engatássemos a conversa sobre como fora a consulta, espreguicei-me como desculpa para olhar mais uma vez para o teto. Lá estava ela. Esteve ali o tempo todo, como eu, observando. Esperando…

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Brincadeiras de Criança…

A praça era o mundo. Todo bairro tem uma, ou deveria ter. A minha tinha uma grande árvore no meio e ao seu redor uns bancos de concreto. Nos canteiros, grama e mais algumas arvorezinhas. O passeio era de terra. Nele jogávamos bolinha de gude. Sobre os bancos de concreto, jogávamos bafo. Na grama, a diversão era pescar formigas com hastes de capim. Com a ponta mais macia do capim inserida na boca do formigueiro, ficávamos a espera que um formigão o beliscasse e, de pronto, suspendíamos o inseto ao ar, dependurado no capim, para o deleite dos colegas. Os mais corajosos testavam sua resistência no poste de luz. Talvez pela falta de manutenção, o poste de luz dava choques. Choques fracos, suficientes para fazer formigar o braço. Entre uma brincadeira e outra, alguém era desafiado a segurar o poste o máximo de tempo possível. Descalço, era preciso estar descalço, ainda que naquela época todos andássemos descalços. A praça era o lazer, mas era campo de guerra também. Brincadeiras sempre acabam em desentendimento, talvez por isso quando adultos, tendemos a brigar no trânsito ou na fila do banco. Se o homem é o lobo do homem, quando meninos, somos lobinhos nada obedientes e alertas. O escotismo sempre me pareceu coisa plástica, artificial. Na praça, quando no gude, no bafo ou no desafio do poste, alguém se desentendia, a porrada comia solta. Pedrada, chute no saco, voadora na cara, não havia espaço para amadores. Até a formiga pescada, que me perdoem os ecologistas, ia parar na boca de algum desafeto. Não bastava dar rasteira e derrubar, esfregava-se a cara do oponente na terra. As mães se faziam acreditar nas desculpas de os arranhões serem de brincadeiras. A ida para a casa no meio da tarde só podia significar uma coisa: buscar uma lata de óleo lizza. Lata de novecentos mililitros, de latão, cuja extremidade superior era removida com o abridor de latas e cujo corpo servia de luva. Encaixada no punho, a lata deixava a armadura do homen de ferro no chinelo. O soco de lata dava onde dava. Nas costas, no peito, na cara. Maloqueiros, dizia a velha que observava os pequenos gladiadores pela janela da cozinha. Quando não estávamos brigando de socos de lata, a lata servia de totem para o jogo de bétis. Dois cabos de vassoura ou ripas de madeira, duas latas e uma bolinha. Era o suficiente para, depois de duas ou três rodadas, a maçaroca infantil virar vassourada, latada e saltos no vácuo com joelhada. Nos casos extremos, se formavam as tropinhas. A tropinha do Ticão, do Zinha, do Beronha, do Sonzi. Alistávamo-nos numa e partíamos para o cacete. Fora da praça, o universo! Novamente, os ecologistas que me perdoem, mas saíamos tacando fogo no mato. O cabo de vassoura do jogo de bétis, quando não era porrete nas costas da tropinha inimiga, era suporte para o frasco de xampu em chamas, pingando breu por onde quer que passássemos. É que naquele tempo, mesmo que já existisse essa tal ecologia, ela não nos chegava. Assistíamos ao Bozo louco no pó. Assistíamos o couro comer nas brigas entre Tom & Jerry, entre o Coiote e o Papa-Léguas, entre o Pica-Pau e o Zeca Urubu. A noite, já cansados e com medo dos morcegos que rodopiavam por entre as árvores da pracinha, fazíamos as pazes. Íamos para nossas casas sujos, fedendo, arranhados, escoriados e com o embrião do berne que, duas semanas adiante, seria tirado das costas com um pedaço de toucinho. Enviados direto para o banho, não sem umas boas chineladas, as duas horas debaixo d’água, com novo perdão aos ecologistas, nem sempre eram por diversão, é que tirar o cascão do pé era coisa para funileiro! A praça era o mundo. Palco das coisas saudáveis que fazíamos naqueles tempos em que não havia Internet.

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Karência…

Meu insucesso escolar na infância e adolescência sempre esteve ligado a uma certa dissonância entre a instituição escolar e eu. A escola não fazia muito sentido, mas essa é uma interpretação do eu adulto, professor, depois de passar por duas licenciaturas e um mestrado. Lá, na longínqua década de 1980, eu apenas flanava por uma existência incompreendida. Não fui daqueles que aos quinze anos leu Sartre. Aos quinze anos eu sequer lia, nem mesmo o que a escola obrigava. Repetente em dois anos anteriores, na oitava série eu era o cavalão que, não fosse um pangaré, estaria completando o ensino médio. Eu era ruim em tudo, mas em matemática eu me superava. Naquela época eu não conhecia Descartes, ainda que o plano cartesiano lá estivesse nas malditas equações. Mal sabia eu que a razão poderia ser assolada, nublada, engrupida, tergiversada pelas artimanhas de um gênio do mal. Demônios que rondam nossas ideias, confundindo-nos e nos afastando da clareza do intelecto. Pois bem, na oitava série esse demônio tinha um nome: Karen. Um demônio de saias, Karen era um anjo esculpido em carne, ossos e cabelos new wave repicados em ondulatórias que faziam as parábolas das equações de segundo grau tão desinteressantes quanto as minhas aulas de Lógica. Quem em sã consciência iria dar trela para Dona Zulmira e o valor de delta quando Karen, conhecedora dos seus encantos sobre garotos introvertidos como eu, me dedicava zero vírgula zero vinte e cinco milésimos de segundo do seu olhar quarenta e três? Era pura perdição. Nas aulas de Língua Portuguesa eu até tentava prestar atenção, talvez na esperança de que o léxico pudesse irrigar a estiagem verbal provocada pela simples proximidade geográfica daquela angelical e demoníaca criatura. Em tempos em que o mundo das ideias de Platão nada significava no meu cérebro de pangaré, Karen era a pura manifestação platônica, meditações metafísicas dignas de um ser em constantes dúvidas clashinianas: should I stay or should I go. Elvis, The Pelvis, filósofo requebrante dos palcos do Rock and Roll já dizia, Its Now or Never? Pois bem, never. Jamais troquei com Karen mais que ois e tchaus pelos corredores tétricos do colégio. Finalmente concluída a oitava série, meus caminhos seguiram por outras searas. Fui para o ensino profissionalizante, a noite, onde a alma pueril de um garoto introvertido como eu teve de sair da caverna. O mundo se descortinou, ainda que a escola continuasse sem sentido. Muitos anos mais tarde, num dia qualquer dos anos 2000, num corredor de supermercado, encontrei Karen. Não a reconheci. Ela sim, me chamou com um psiu, você não é o Edgar? Do Santa? Assenti com a cabeça ainda vasculhando na memória quem seria aquela mulher. Trocamos algumas palavras sobre os bons tempos de colégio e cada qual seguiu seu caminho, ela para o corredor dos laticínios, eu para a seção de bebidas. No caixa, enquanto a atendente, minha ex-aluna, reclamava da semana de provas, a ficha caiu. Meu deus, a Karen! David Hume já havia me alertado, nossas memórias são ficções, histórias que contamos para nós mesmos.

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Grilo…

Sua constituição física não ultrapassava os um metro e cinquenta centímetros e quarenta e sete quilos e meio. A tênue camada de fibras musculares eram-lhe suficientes para cobrir-lhe os ossos. Quando criança, recebera o apelido de louva-deus. Mais tarde, já no chão de fábrica, chamavam-no chassi de grilo. Para os íntimos, apenas Grilo. Sua história é a historia de qualquer um de nós. Nascido José de Queiroz, Grilo foi mais um lançado neste mundo sem o manual de instruções. Logo cedo, sua avó quis mostrar-lhe o caminho para o céu. Devota, Ludismara, Dona Mara entre os irmãos de fé, carregava Grilo para os cultos. Ainda meninote, Grilo percebeu que sua vinda ao mundo, além de desprovida do manual de instruções, se deu desprovida de fé. No culto, o blábláblá do reverendo era um relés ruído de fundo. Grilo tinha sua atenção voltada às luzes cintilantes da cidade, aquelas que se podiam ver por uma das frestas do imenso vitral da igreja. Apesar dos protestos de Dona Mara, durante a adolescência Grilo trocou a igreja pelo bar. Seus pais, pouca atenção davam ao pequeno Grilo — a eles daremos pouca atenção também. Pequeno tanto em proporções físicas como no gosto popular. No alto dos seus 25 anos, Grilo era apenas uma sombra. Pouca sombra, como gozavam os amigos da escola técnica. Viva por entre bêbados e vagabundos desde os treze anos. Servia-lhes de office boy, indo e vindo com recados e pequenos favores. Bebericava as doses de pinga, rabos de galo e outras misturas típicas dos balcões encardidos e mal servidos pelos Seus Raimundos da vida. Quando algum anônimo mais abastado resolvia, tomado pela generosidade que somente uma quantidade de álcool no sangue é capaz de prover, pagar uma rodada para a trupe de boêmios, Grilo, valendo-se de sua ágil pequenez, era o primeiro a receber uma dose de Old Eight. Comia o que restava nas panelas da casa. Dormia num colchão, num canto, num pequeno quarto que dividia com seu moribundo avô e duas galinhas d’Angola, mimos de Dona Mara — apenas as galinhas, que fique claro. Na fábrica, por benevolência do Senhor Aparecido, conseguiu o posto de auxiliar de almoxarife. Das oito às dezoito ajudava Rubens da Mata, o Rubão, com as prateleiras lotadas de peças. Rápido como um camundongo flagrado pelo acendimento de uma luz qualquer, Grilo subia e descia as escadas corrediças catalogando, organizando e despachando todos os pedidos que Rubão ordenava de sua confortável cadeira de supervisor. No fim do dia, Grilo afogava seu cansaço em opacos copos de cerveja barata. Sem saber como nem porque, sem se dar conta dos dias e noites, Grilo seguia existindo, sem o manual de instruções. Nos fins de semana, quando o salário permitia, Grilo se dava ao luxo de um passeio pela cidade. Anônimo, Grilo se metia em meio às luzes que contemplava quando meninote. A avenida central, repleta de bares de balcões limpos e atendentes sorridentes, cheios de gente bonita, gente que bebia misturas coloridas com frutas e pequenos guarda-chuvas, gente que bebia cerveja cara em copos translúcidos. Anônimo, Grilo encostava sua carcaça num poste, acendia um cigarro e, por algumas horas, misturava-se às sombras. Seus olhos miravam um mundo que não era o seu. Um mundo cujo o blábláblá do reverendo denunciava como o fins dos dias. Um mundo no qual as pessoas pareciam saber exatamente o que fazer. Pobre Grilo, mal sabe que aqueles drinks coloridos com frutas e guarda-chuvas não passavam de cervejas baratas em balcões encardidos, placebos. Todos, sem exceção, jogados no mundo sem o manual de instruções. Na volta, caminhando sob a brisa fresca da madrugada, Grilo deixava escapar uma lágrima. Já enrolado nos trapos que fazia de coberta, antes de entregar-se ao sono, como em todas as noites, Grilo voltava-se para o seu moribundo avô com um pergunta na mente. Uma pergunta nunca feita em voz alta. A vida é isso mesmo? A vida é isso mesmo, disse Dona Mara quando acordou Grilo. O corpo do avô já não estava lá. Nem a cama, para dar mais espaço para as d’Angola. A vida é isso mesmo.

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Tobias…

Tobias olhou para os dois lados do galpão. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Certificou-se que nenhuma alma testemunharia sua covardia.

Há tempos Tobias era o saco de pancadas da firma. Todos, sem exceção, zombavam dele. Uns descaradamente, outros, pelas costas, nas conversas ao redor da mesa do café. Até mesmo dona Judith, a copeira, aquela doce senhorinha que, de hora em hora, renovava o café nas garrafas térmicas. Café que aromatizava o escárnio sobre Tobias. Justo ela, agora, puxava o corredor polonês das palavras. Palavras baixas, palavras que vertiam fel. Dona Judith, pensou Tobias. Seria ela, ou melhor, através dela, que Tobias se vingaria. Sim, seria o café o veículo da sua vingança. Café que ele, Tobias, sequer gostava. Nunca fora dado aos fetiches do café. Nunca compreendeu direito as aglomerações e conversinhas em torno do café. Embora nunca tenha sido chamado a bebê-lo com os demais, achava-o ruim. Certa vez, sem que ninguém o visse, bebericou uma ou duas gotas. Foi o suficiente para que o asco lhe tomasse. O café lhe enjoava. Não o de dona Judith, mas qualquer café. Talvez por isso, pelo desprezo ao café, tenha sido justamente o café o seu eleito. Escrutinou a memória em busca do horário de maior movimento no canto do café. O canto asqueroso onde pessoas asquerosas diziam: Até quando vamos aturar o Tobias? Vejam, lá vem o Tobias, credo. Sai daqui, Tobias, ninguém te quer. Jurandir, o porteiro, todos os dias esperava, de tocaia, a chegada de Tobias. Tão logo Tobias lhe dava às costas, cuspia-lhe. Não um cuspe qualquer, mas daqueles, catarrentos, cuja a viscosidade impregnava a quem lhe fosse alvo. E o alvo era sempre Tobias. Às vezes errava, às vezes acertava. E em ambos os casos, Tobias seguia em silêncio, escravo de sua condição. Quando o dono da firma estava por perto, todos se faziam de bons-moços, uns até verbalizavam, hipócritas, uma saudação ao Tobias na frente de Seu Cróvis. Sim, Cróvis, com érre mesmo. Na certa, um erro de registro. Seu Cróvis nascera na roça, em tempos outros. Mas, calma lá, a história é sobre o Tobias! E Tobias tinha a afeição de seu Cróvis. Era o único que se achegava no canto de Tobias, estrategicamente colocado o mais distante possível da mesa do café. Mas seu Cróvis, depois de percorrer o galpão, recolhia-se em seu escritório a contabilizar a empresa. Tobias, longe de seu protetor, voltava a ser alvo dos olhares maldosos, das palavras virulentas. O café! Tobias arquitetava seu plano há dias. O melhor horário: após o almoço. Ao meio-dia todos se ausentavam para comer no restaurante próximo. Todos, menos dona Judith, que almoçava ás treze horas. Havia uma pequena janela de tempo, cinco minutos talvez. Era o tempo entre dona Judith deixar o café pós-almoço coando na cozinha e ir buscar as garrafas térmicas da mesa do café. A maioria, logo após a volta do almoço, já rondava o canto do café. A porta da cozinha não se via de lá. Tobias teria exatos cinco minutos para sair do seu canto sem ser percebido, adentrar na cozinha e realizar sua vendetta.

Tobias olhou para os dois lados do galpão. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Certificou-se que nenhuma alma testemunharia sua covardia. Caminhou sereno até uma pilha de caixas e esperou dona Judith sair da cozinha em busca da garrafa térmica. Fora do campo de visão de todos, Tobias entrou pela porta, saltou sobre a mesa, saltou para a pia e, diante do coador de pano que vertia o negro líquido para um canecão, ergueu a pata traseira e, com uma feição quase humana, com um sorriso de Monalisa, diriam, deixou verter sua urina, a que ele segurava desde a manhã, para dentro do coador. Contou mentalmente os minutos e, ainda que lhe restassem mais alguns mililitros no canal urinário, saltou da pia direto ao chão. Esgueirou-se pela porta e, novamente oculto pela pilha de caixas, passou despercebido por dona Judith, que cantarolava uma antiga canção enquanto trazia as garrafas térmicas vazias. Seguindo o ritual de sempre, dona Judith encheu ambas as garrafas, em uma delas, antes, adicionou as habituais colheradas de açúcar, afinal, era preciso agradar ambos os públicos, os da doçura e os da amargura. Garrafas cheias, voltou à mesa do café, saboreá-lo com os demais colegas.

Tobias ainda era filhote quando seu Cróvis o resgatou. Fora vítima da crueldade de um bando de adolescentes. Haviam queimado-o com plástico derretido, dado-lhe algumas pancadas com galhos de árvore e largado-o à beira da morte numa beira de estrada. Perdera mais da metade dos pelos, tinha uma orelha partida ao meio e faltava-lhe um olho. Seu Cróvis deu-lhe os cuidados necessários e um canto para ficar. E, do seu canto, agora, Tobias via seus algozes maldizendo o café de dona Judith. Mas que porcaria é essa? Experimenta isso, sua velha louca. O quê você colocou aqui? Em poucos minutos, dona Judith, a doce senhorinha que, de hora em hora, renovava o café nas garrafas térmicas, sentiu na pele a maledicência que somente o bicho humano é capaz. Tobias acompanhou-a com os olhos até a cozinha. Ouviu-a chorar e lamentar, entre suspiros, que aquilo, a forma como fora tratada, não se fazia nem com um cachorro. Nem com um cachorro! Seu Cróvis, que descia para o café, foi alertado. Estava um lixo, tinha gosto de urina, disseram-lhe. À caminho da cozinha, pronto a confortar dona Judith, seu Cróvis percebeu que Tobias não estava mais em seu canto. Chamou-o uma vez. Duas vezes. Três vezes. Nada. Tobias, livre de sua covardia, havia ganhado o mundo, embora ainda estivesse a apenas dois quarteirões do galpão.

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urGente…

O tempo urge. Estaciono meu carro e sigo para o prédio no qual dou aula. São sete e meia. Um aluno me aborda logo na saída do estacionamento. E ai, professor? Tudo bem? Tudo bem. Ele tem uma dúvida e anseia por saná-la. Eu tenho que bater o ponto. A angústia me toma logo cedo, sei que se atrasar no ponto, serei descontado. Sei que se parar para atender o aluno, me atrasarei. Devo deixar o aluno em suas dúvidas e cumprir com o protocolo do relógio de ponto? Devo atendê-lo? Afinal, meu ofício de mestre não é mais que um bater cartões? Ó dúvida. O tempo urge. Me acompanhe até o prédio, digo a ele. Vamos, peripatéticos, trocando ideias pelos corredores. De frente a sala dos professores, peço um instante, preciso entrar e registrar minha presença. Agora, suba comigo até o terceiro andar. Ele me acompanha aos tropeços, o caminho me é familiar, me é cotidiano. Ele explana suas dúvidas, eu as diluo a cada lance de escada vencido. Já em frente a sala de aula, ele me agradece. Aulas de corredores, uma de minhas especialidades. Noutro canto da cidade, Rogério segue em zigue-zagues pela rodovia. O tempo urge. Cada quilômetro tem ares de fórmula um. Os segundos dão lugar aos décimos de segundos. Vai, vai, vai! Raios, a toupeira no carro à frente reduziu diante da amarelidão do semáforo. Amarelou, Rogério teria avançado, reduzido a marcha e socado o pé no acelerador. O tempo urge. Depois de cumprido o ritual dos registros, sento-me à mesa para aguardar os alunos. É que o tempo urge de formas distintas. Para uma sala de aula, sete e quarenta pode bem ser oito e cinco. Bem, ao menos para os alunos. No trânsito, Rogério, esbaforido, maldiz o tráfego intenso. Teriam todos saído justamente ao mesmo tempo que ele? É que Rogério, assim como eu, tem um ponto a bater. O relógio, mais que o relojoeiro, dita as regras. Os ponteiros apontam-nos, julgam-nos. No tique-taque, no zigue-zague, Rogério, esbaforido, perde a prova. É que às vezes, sete e quarenta é sete e quarenta mesmo, sem choro, sem desculpas, sem piedade. Acordasse mais cedo, saísse mais cedo. O inferno, já dizia Sartre, são sempre os outros. Não levem a mal o meu colega professor, o que aplica a prova. Ele apenas reproduz o tique-taque, vive no zigue-zague, apontado, aponta. Regrado pelo ponto, passa a regrar a si e aos demais. O tempo urge. Cá na minha sala, o movimento de nádegas dormentes denunciam que estamos perto das nove e vinte, hora de partir. É que o relógio que nos cobra a entrada, nos empurra à saída. A fila anda. O tempo urge. No corredor, uma aluna me chama. Professor, perdi sua aula de ontem, posso tirar uma dúvida? Acompanhe-me, acompanhe-me, por favor. Peripatéticos, vamos eu e ela, trocando ideias. O tempo urge.

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