Coisa de meninos…

Eram os últimos dias de dois mil e dezessete. Aline conseguiu um horário com a manicure e lá fomos nós. Como todo bom marido, fiquei à espera na saleta destinada aos bons maridos. Saquei meu e-reader e pus-me a ler minha leitura do momento, O Lobo da Estepe. Ao meu lado, um garoto de seus oito ou nove anos. É que a saleta dos bons maridos também é a saleta dos bons filhos. Eu com o meu e-reader, ele com o seu tablet. Nos olhamos por poucos segundos, tempo suficiente para entendermos que cada qual tinha o seu brinquedo e, portanto, nenhuma interação social era necessária. Como bom filósofo que tento ser, ao estilo Sartre, fiquei com um olho na tela do e-reader e outro no ambiente. São nesses espaços – além do banho, óbvio – que surgem boas ideias para crônicas. O garoto, mais comprometido com o seu tablet que eu com o meu e-reader, ignorava o palavrório da mulherada que entrava e saia. Algumas delas, enquanto aguardavam a máquina de cartões de crédito processar suas despesas, davam rápidas olhadas nas duas criaturas da sala de espera. Ah, os males da tecnologia, olha só esses dois, de caras coladas nas telas do seus dispositivos eletrônicos, pensou a moça de cabelos escovados. Uma outra, cujas as madeixas estavam protegidas por um saco plástico  – chovia lá fora –, cogitou que fossemos, eu e ele, pai e filho. A secretária, aquela que tudo sabe, fez que não com a cabeça. Santo Facebook, pensou o cabeleireiro, é o que salva esses pobres apêndices de hoje em dia. Antigamente eram aquelas revistas de variedade. Todo bom salão – ou consultório médico – tinha sua pilha de revistas. Os acompanhantes podiam matar o tempo folheando uma Contigo de Março de Mil Novecentos e Setenta e Três em pleno Mil Novecentos e Noventa e Nove. Mas não para nós, eu e o garoto estávamos aparados pela tecnologia, mas distantes do vazio das redes sociais. O Lobo da Estepe comigo, um jogo de ligar pontos com ele – sim, eu consegui espiar o que se passava na tela do brinquedo dele, coisa de meninos. De súbito, uma senhora, espalhafatosa, adentrou ao salão. Vinha com duas sacolas e uma voz de trombeta do apocalipse. Meninas, trouxe bolo! Dois! E anunciando a boa nova, esgueirou-se salão adentro. Tanto eu como o garoto paramos nossas atividades para contemplar a anciã chique-no-último. Dois bolos, eu tenho certeza que o garoto pensou o mesmo que eu: um para cada! Coisa de meninos. Quando o som da voz da velha senhora se perdeu, nossos olhares se cruzaram por mais um ou dois segundos. Com um leve arquear de sobrancelha esquerda, o semblante do pirralho deixou claro que ele também havia espiado a tela do meu brinquedo, cheia de letras monocromáticas e sem graça. Antes que eu pudesse lançar-lhe um olhar de desdém, a velha senhora reapareceu. É um de laranja e o outro é com aquela cobertura branca que vocês gostam. Um pra hoje e outro para amanhã, instruiu a dama dos bolos. E já sabem, né? O coro de meninas respondeu em uníssono: nenhum pedaço para corinthianos. O garoto congelou ao ouvir a réplica da velha senhora. Se der um pedaço do meu bolo para corinthianos, eu mato na paulada. O garoto entrevou-se na sua tela. Eu, que de futebol entendo apenas que a bola é redonda, já estava prestes a delatar o corinthianinho à minha direita quando a velha senhora parou diante de mim e, com voz de professora da quinta séria que tinha sido, questionou-me: você é corinthiano? Apenas pude balbuciar um não. Se for, eu mato na paulada, advertiu a dama dos bolos. Apenas pude balbuciar um segundo não. Então, virando-se para a secretária, aquela que tudo vê, completou: pode dar um pedaço pro moço. A senhora, com seu garbo e elegância, desapareceu pela mesma porta que chegara. Apenas o rastro do seu perfume Rastro e as risadas das meninas do salão permaneceram. O garoto havia escapulido também, aproveitou-se do meu interlúdio com a madame e foi-se para debaixo da saia da mãe, o sacripanta. Coisa de meninos…

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Madrid…

Depois de percorrer mais de seiscentos quilômetros de carro, parando em um pueblo ou outro, chegamos a Madri. Era tarde, mas ainda tívemos ânimo para andar um pouco e tomar unas copitas. Já passava da meia-noite quando finalmente nos instalamos no hostel. Da janela do quarto se podia ver o movimento dos carros na grande avenida de uma cidade que nunca para. Lá do alto do oitavo andar, pude ver que do outro lado da avenida havia uma tienda de guloseimas aberta. Decidido a comprar uns chocolates para suprir as cotas de energia que seriam necessárias para percorrer as ruas e os encantos de Madri na manhã seguinte, vislumbrei a possibilidade de por em ação o meu espanhol sem a supervisão dos meus primos ibéricos. Seria um vôo solo entre estranhos, sem a cumplicidade e caridade dos parentes frente ao meu portunhol do dia-a-dia. Desci pelo elevador e passei em frente ao sonolento recepcionista armado de meu buenas noches, que não reverberou diante da peleja deste com suas palpebras.  Já na rua, o ar frio de dezembro aqueceu minha incursão comunicacional. Atravessei a rua e caminhei alguns poucos metros até a porta da tienda. Li alguns dos cartazes colados no vidro com preços de chocolates e pastilhas de menta. Lá dentro, o vendedor me olhava desconfiado. Inspirei o ar gelado, ergi a gola do casaco e entrei triunfante e portando do meu melhor sorriso. Finalmente: ¡Buenas noches, caballero! Arqueando as sobrancelhas, o vendedor me devolveu o sorriro com um sonoro oxênti meu rei, brasileiro? Assim, onde a Ipiranga cruza com a avenida São João, terminou minha incursão solo pelo castellano. Raimundo era seu nome. Baiano de pai e mãe e como o nome já vaticinava, Raimundo era cidadão do mundo. Havia estado em mais cidades que a minha mente atordoada pelo inusitado encontro pode reter. Milão, Paris, Lisboa, Londres, Dublin, Berlin, Praga… Raimundo passou os primeiros três, dos vinte e dois que já levava na Europa, perambulando de emprego em emprego, de cidade em cidade. Dominava el castellano, arranhava o frânces, o inglês, o italiano e patinava no alemão. Alemão que ele julgou ser a minha língua quando me viu ainda fora da tienda. Meu rei, quando te vi entrando com essas alturas todas, pensei cá comigo, lá vem um lemão. E alemão é lenha de entender, segundo o meu amigo Raimundo. Tão logo notou que o gigante que ali estava de alemão não tinha nada, pulou para o lado de fora do balcão e me deu um daqueles abraços que a gente só dá em gente querida. Conversamos sobre sua trajetória. Vivendo a vinte a tantos anos no estrangeiro, fazia cinco anos que Madri era a sua cidade. Cidade onde seu filho mais novo arrumou uma esposa e lhe deu dois dos sete netos. O filho mais velho vivia na itália e o do meio voltou para a Bahia de Nosso Senhor atrás de um rabo-de-saia. Contei-lhe sobre a minha família e sobre meus avós, que em rota contrária, de Barcelona acabaram fazendo a vida numa Sorocaba que eu, tolo, julguei desconhecida para o internacional Raimundo. Sorocaba, meu rei? Ôxi, meu cunhado mora ali pertinho, em Itu, cidade das coisas grandes, segundo meu amigo Raimundo. Fiquei com medo de perguntar quem seria o seu cunhado, temendo que em algum momento o nosso colóquio nos revelasse que o mesmo fosse meu ex-aluno. Animado com a minha presença, saimos para o frio da calçada onde Raimundo acendeu um cigarro. Fuma, meu rei? Neguei. Faz bem, isso aqui ainda vai me matar. Entre uma tragada e outra, enquanto a fumaça traçava rodopios com a brisa gelada, Raimundo me deu algumas dicas sobre a cidade que ele conhecia tão bem. O ar frio contrastava com o calor daquela conversa. De volta ao interior da tienda, mostrou-me fotos dos meninos com a camiseta do Real Madrid – que meus parentes catalães não me leiam! Quando a conversa começou a ficar nostálgica demais, com os olhos embotados, Raimundo, fazendo jus ao seu comércio, finalmente perguntou em que ele poderia me ajudar naquela fria noite de dezembro. Uma garrafa de água, dois chocolates e um pacote de pastilhas de alcaçuz. Quando fiz menção de tirar a carteira do boldo, Raimundo interveio: é por conta da casa, meu rei. Depois de outro abraço caloroso, atravessei a rua com Raimundo às minhas costas, acenando sorridente. Antes de entrar no hostel, deixei que o ar frio inundasse meus pulmões numa longa inspiração. Olhei para o outro lado da rua e Raimundo já havia voltado para o seu lado do balcão e folheava um jornal qualquer. Na recepção do hostel, o atendente dormia sentado, com a cabeça pendida para trás, feito um iogue ou contorcionista. Passei em silêncio e deixei que o elevador me levasse ao merecido sono.

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Meninos Insanos…

Naquela época, corríamos feito loucos pelos trilhos da ferrovia. Longe dos olhos e das tecnologias, no limite da molecagem, pegávamos rabeira no trem. Do pontilhão próximo à antiga Villares, seguíamos até os fundos do Shopping Sorocaba, uma viagem cheia de aventuras. Não sabíamos o que significava a palavra adrenalina, apenas a tínhamos correndo pelas veias. Insanos, dia desses vi uns meninos insanos pegando rabeira no trem. Ah, a velhice nos atinge em cheio. Ou seria a covardia? Trinta e tantos anos depois, eu, no conforto do ar condicionado do carro, ouvindo um velho rock, observava os meninos dependurados, cabelos ao vento, sem o menor pudor, sem o menor cuidado. Menores vivendo suas vidas intensas de adrenalina, ainda que eles sequer saibam lá o que isso signifique. Insanos, pensei. Como éramos insanos, como são insanos. Me lembro de que lá do alto dos trilhos, agarrado ao vagão, vagávamos olhado os carros que nos olhavam. Em algum momento, ainda que a minha memória falhe, vislumbro o olhar de um homem que prestava atenção em mim, um olhar do conforto do seu carro, ouvindo um rock bem recente, talvez sem ar condicionado. Aquele homem que me mirava nos tempos da meninice agora me mira do alto da sua rabugice. Insanos! Ainda que os tempos fossem outros, sem centenas de canais de TV, sem gigabytes de informações, sem redes sociais, éramos inconsequentemente insanos. Como diz meu irmão mais velho, somos sobreviventes. Apesar de tudo, sobrevivemos. Difícil não olhar para trás com um certo saudosismo, éramos insanos, éramos felizes. Depois do passeio clandestino, uma tubaína dividida em seis copos e lanches de mortadela num bar qualquer, ao lado de bêbados inveterados e um dono de boteco mal-humorado. Sobreviventes, não sei quem são aqueles meninos insanos que vi dependurados no trem. Serão felizes? Sobreviverão? Quem sabe, um deles, lá na frente, seja um terráqueo a escrever suas crônicas. Quem sabe um deles seja publicitário, sambista, bancário, caminhoneiro ou, quiçá, seja assassinado com tiros na frente de um bar. Difícil olhar para o passado apenas com olhos marejados pelos bons tempos. Bons, com certeza, porém insanos. Arrisco dizer que o homem que me olhava de dentro do seu carro naquelas tardes juvenis e o menino que hoje se dependura insanamente no trem que corta a minha visão são a mesma pessoa. O tempo perde o sentido nas memórias, são os sentimentos impressos com tinta de adrenalina nas veias que dão o tom dessas memórias insanas. Insanos…

Ponto final…

Esse ônibus passa na policlínica, perguntou-me a senhora de cabelos brancos e bengala. Antes que eu pudesse dizer que não sabia, uma outra senhora de cabelos brancos respondeu, passa. Aos poucos, vários senhores e senhoras idosos lotaram os bancos. Aqueles mais dispostos, seguiram em pé, assim como eu. Minha mochila foi para o meio das pernas, para não ocupar o espaço que a cada minuto de espera, tornava-se mais escasso. Por fim, ônibus lotado, deixamos o terminal. Eu arriscaria dizer que oitenta porcento das pessoas naquele coletivo estavam acima dos sessenta anos. Ao longo do caminho, mais uns sete ou oito idosos embarcaram. A pergunta inicial, se ele passava na policlínica, fez sentido. Sem fones de ouvido, eu pude ouvir os relatos, as reclamações, os diagnósticos e até mesmo qual medicação é melhor indicada para esta ou aquela dor. Entre assuntos medicamentosos, uma ou outra louvação. Deus e remédio talvez tenham sido as palavras mais ouvidas por mim. Talvez porque sejam sinônimas. Talvez por que uma delas seja o placebo. Devagar, entre trancos e freadas, o coletivo seguiu por ruas que me eram conhecidas. Pude notar fachadas novas, casas que deram lugar a pequenos edifícios, novos comércios e alguns terrenos baldios, desses bons para mandar alguém carpir. Enquanto a audição deleitava-se com o universo vocabular das senhorinhas, umas doces como as vovós dos contos de fadas, outras rabugentas como só uma vida sofrida sabe modelar, os olhos capturavam imagens de uma cidade que sempre foi minha, na qual sempre fui um andarilho. Imerso nesse misto de sons e imagens, o coletivo chegou a tal policlínica, que outrora fora o hospital para o qual eu fui levado quando fui atropelado. Memórias, os aromas da infância, da adolescência, dos primeiros anos da juventude, todos misturados às colônias de alfazema, desodorante Avanço e suor. O ônibus quase que esvaziou, ficamos eu, o motorista e mais uns dois ou três rapazes com pastas nas mãos. O ponto final da linha é na prefeitura, logo, da policlínica até o palácio dos tropeiros, iriamos apenas nós, uma meia dúzia de gente que seguiu silenciosa, cada qual no seu banco. Os olhos ainda escrutinavam a cidade, mas os ouvidos tinham agora apenas os rangidos metálicos do coletivo. Na boca, um gosto amargo se fez intensificar.

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Maria

Maria é minha aluna. Sua mãe fez das tripas coração e segurou as pontas quando o pai desapareceu no mundo. Maria trabalha das 8h às 18h, pega no pesado na linha de produção. Acorda às 5h para ajeitar a casa. 7h está no ponto de ônibus. 18h45 ela chega à faculdade. Maria é minha aluna e se meteu a estudar. Sem diploma, o salário é baixo. A vida é dura. Maria chega para minhas aulas com fome, com sono, sentindo-se suja, feia. O papel de enxugar as mãos do banheiro da faculdade lhe serve de banho. A fome mata-se com um pacote de Fofura, barato, o dinheiro de um salgado faz falta no fim do mês. Maria perdeu minha prova. Choveu e o ônibus atrasou. Na anterior teve 4,5. Não estudou, passou a madrugada com a mãe no hospital. Sábado a classe vai visitar uma empresa, aprender como funciona a produção. A produção onde Maria trabalha. Mas sábado é dia de Maria cozinhar para gente fina. O bico de cozinheira no restaurante paga o xerox, o Fofura. O salário da fábrica vai todo na faculdade. Maria não levantou a mão quando perguntaram quem iria participar da formatura. Baile, vestido, fotos, Maria não pode. Na última aula Maria me disse que está com medo de pegar DP. Me perguntou se tinha algum trabalho para ajudar na nota. Eu disse, damos um jeito, Maria. Enquanto isso, noutro canto da cidade, Cauã escreve no seu facebook, debocha de aluno de “uniesquina”. Ele não conhece Maria. Mal sabe ele que o filet mignon ao molho madeira que ele come todo sábado é ela quem faz. Mais um semestre começa. Marias, Josés, Cauãs…

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Mundo cão…

O cinema errou feio, nada de macacos, os cães hão de dominar o mundo. Será um mundo cão. O dito popular, tive um dia de cão, há de ser ressignificado. Waldick Soriano desejaria ter retirado a palavra não de uma de suas canções de maior sucesso. Eu sou cachorro, sim. Nem mesmo o Rock da Cachorra, na voz de Eduardo Dussek, nada pode contra a cachorrada. Dia desses, passeando com a Aline por um outlet chiquetoso, tive a epifania do óbvio ululante. Estamos à beira de um planeta dos cachorros. Enquanto a Aline serpenteava pelas araras cheias de roupas de uma loja, eu buscava algo para molhar o bico. O providencial quiosque de cervejas especiais, além de me proporcionar a degustação de uma refrescante Session IPA, foi palco de uma inusitada constatação. Dois atendentes muito simpáticos trabalhavam no quiosque. De olho nos clientes e na tela do computador que exibia um jogo de futebol qualquer, um deles fez um comentário que não me passou despercebido. Hoje, misteriosamente, os carrinhos tem mais gente que cachorros. Fiquei confuso com a afirmação do rapaz que se desdobrava em encher copos de Guinness e maldizer o centro-avante do time adversário. Ao meu lado, um senhor de talvez cinquenta ou sessenta anos, me pergunta sobre o placar. Fiz-lhe a minha melhor cara de não faço a menor ideia e apenas dei de ombros. Minha mente que nunca foi atenta aos eventos futebolísticos apenas rodopiava na busca da compreensão daquela frase, dita sem maiores pretensões pelo jovem atendente. Mas que raios quis ele dizer com há mais gente que cachorros nos carrinhos? Indignado com a minha ignorância, pedi outro chope na esperança de perguntar-lhe, assim como quem não quer nada, sobre essa coisa de gentes e cachorros. Nada feito, o chope foi tirado e servido apenas com a visão periférica, o jogo lhe interessava mais que o meu semblante contorcido pelo sinal de interrogação. Dei um longo gole no chope para lavar minha angústia. Enquanto girava meu corpo sobre a banqueta para poder observar por onde andava Aline, ao lançar o olhar para a grande praça que conecta todas as lojas, como uma bigorna do Papa-Léguas em queda livre sobre a cabeça do Coyote, o comentário do atendente se fez luz. Diversos casais circulavam com carrinhos de bebês. Passeando por entre os corredores, dentro das lojas, os carrinhos abundavam. Apurando o olhar, a constatação! Parte dos carrinhos trazia em seu interior cães. Carrinhos de bebês recheados de cachorros. Tal qual um indígena pré-colombiano, de súbito, o elemento canino se fez presente – reza a lenda que os índios, alguns deles ao menos, na época do descobrimento, não se deram conta das caravelas no horizonte, pois aquelas monstruosas naus nada representavam no seu espectro cognitivo. Tão assustado quanto o menino daquele filme de suspense, eu disse para mim mesmo, vejo cães por todos os lados. Terminado meu chope, pus-me a circular e a observar o conteúdos dos carrinhos. Numa proporção de um cachorro para cada dois ser-humaninhos, aquele, segundo o atendente, era um dia atípico. Normalmente os cães são maioria e, se levarmos em conta os caninos que andavam em coleiras ou nos colos de seus donos, certamente a população canina ultrapassava a dos pequenos rebentos. Entrei numa loja em busca da Aline, que carrega no ventre nossa pequena Heloísa. Eu precisava compartilhar com ela minha descoberta. Flanando por entre bermudas e camisas em busca dos meus amores, ouvi os latidos estridentes de uma dessas criaturas. No colo de uma jovem senhora, o cão latia desesperadamente para um garoto que brincava com um boneco do Homem de Ferro. Incomodada, a jovem senhora pediu que o garoto parasse de se agitar, pois o totó estava desconfortável com os movimentos bruscos que Tony Stark fazia por entre sungas e biquinis. Ao lado dela, em consonância com seus pensamentos, outra jovem senhora, também acompanhada de seu totó, no carrinho de bebês, olhando torto para o garoto, questionou-se onde estariam os pais daquele demônio de calças curtas. Diante do ocorrido, em dúvida se eu não me encontrava numa das pegadinhas do Silvio Santos, pensei comigo: preciso de outro chope.

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Quem vai casar?

Sentou-se em frente a mesa do professor sem muita convicção. Professor, preciso te pedir algo. Pois pida, disse-lhe em um quase sorriso. Era seu costume falar certas palavras em português errado. Não por ignorância, mas por estratégia. É que ao proferir pobrema diante de um problema, a aura catedrática, muitas vezes inibidora de um diálogo mais fluído, evaporava-se em nuvens de descontração. Dizia ostra no lugar de outra, bão no lugar de bom. A faca era de dois legumes e o combinado, cãobinado. Tomate-ca-mente era automaticamente e, de trocadilho em trocadilho, de erro em erro, a comunicação se dava sem prejuízo. Fazia por graça, ainda que um ouvido ou outro, inadvertido, achasse um despautério professor falar assim. Então, professor, seu trabalho, aquele em grupo, que o senhor sorteou semana passada… As reticências, o olhar cabisbaixo e os vinte anos de sala de aula profetizavam o pedido de dispensa, restava saber o motivo, razão ou circunstância. Tô ligado, disse o professor para abreviar o suplício. Da lista de possibilidades, é sabido que a morte não se anuncia com semanas de antecedência, logo descartou o velório de alguma tia lá no interior do Paraná. Tamborilando os dedos sobre a mesa ao ritmo da marcha imperial, disparou. Quem vai casar? As sobrancelhas arqueadas e a luminosidade no rosto vieram seguidas de um sonoro eu. Eu, professor. Na sexta no civil, no mesmo cartório no qual sua futura esposa trabalha de recepcionista, logo pela manhã Sábado no religioso, para agradar a família dela, lá no interior do Paraná, na igreja matriz, bem a tardinha. Os trâmites para o casório já vinham de um ano antes. O aperto financeiro e a dificuldade de reunir toda a parentada fez com que a data coincidisse com a apresentação do trabalho da faculdade. É coisa do zodíaco, diziam-lhe os amigos solteiros. Antes evitar uma DP que afivelar-se nas coleiras do matrimônio. Sabiam que perderiam o goleiro das noites de terça para a futura esposa e o Master Chef. Já os familiares, agarrados à última esperança de finalmente ver-lhe casado, mandariam às favas o professor, tudo dentro das normas da ABNT, que fique claro. Segundo minha avó, disse-lhe, o homem nasce, cresce, fica bobo e casa. Pois é, professor… As reticências, novamente elas. O aluno esperava uma resposta. Era uma faca de dois legumes, o professor poderia dizer-lhe ema ema, cada um com seus pobrema. O professor sabia disso. A pausa dramática se estendeu por mais alguns segundos, o suficiente para uma gota de suor formar-se no canto esquerdo daquela têmpora universitária. Sem pobremas, meu caro. Trocamos com o grupo anterior e, tomatecamente, seu grupo fica para a ostra semana. Cãobinado? Oxi, professor. O alívio muscular podia ver-se em fluidas ondas sob a pele do rapaz. Desejou-lhe um bão casamento enquanto observava-o flanar dois centímetros acima do solo. De volta aos teclados do seu computador, à crônica que digitava quando fora interrompido pelo noivo atormentado, percebeu uma sombra diante de si. Antes que pudesse concluir a digitação desta linha, a sua frente, sem muita convicção, sentou-se outro aluno. Pida!

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Tocaia…

Sentamos para beber uma cerveja. Na mesa ao lado, quatro cavalheiros trocavam confidências. Talvez pelo alto teor alcóolico em suas correntes sanguíneas, o volume de suas vozes também estava elevado. Um deles, na casa dos seus cinquenta e tantos, se gabava do fato de sempre camuflar seus deslizes com a amante. A esposa, certa vez, encontrara um vidro de esmalte que não lhe pertencia no carro do marido. Com voz de barão, colocou-a no seu devido lugar. Ora, onde já se viu, aquele esmalte poderia ter vindo das mais inusitadas situações e, obviamente, nenhuma delas relacionada a existência de uma outra mulher. Rapidinhas nas pousadas urbanas, aquelas cujo movimento no horário do almoço concorre com os drive-thru dos fast-foods. Dia desses, por uma casualidade, estacionei em frente a um desses estabelecimentos justamente na hora do almoço. Foram menos de quinze minutos, o suficiente para ver, além do entra e sai de carros, rostos em esquiva toda vez que davam com a minha cara. Fazia o calor típico de um início de tarde quente em Sorocaba, eu mantinha todos os vidros do meu carro abaixados. Posicionado de cara com o portão da saída de um desses sei lá o nome, motoristas e acompanhantes, incautos, ainda risonhos, fechavam seus rostos ao se depararem com meus ray-ban escuros, barba mal feita e sobrancelhas de lobisomem. Meu deus, será um detetive particular, certamente foi o que se passou pela cabeça da jovem senhorita do sedan vermelho. Não, imagina, é algum vagabundo, detetives são discretos e eu estava mesmo era a me divertir. No utilitário de luxo, o motorista, ao dar de cara com o este Ed Mort de araque, titubeou. Embicou para a direita, deu seta para a esquerda e saiu cantando pneus enquanto sua passageira enfiava o rosto na bolsa. Talvez tenha sido numa dessas situações que o vidro de esmaltes do início de nossa conversa tenha vindo a cair sob o banco do cinquentão. Vá saber! Pois bem, voltando a minha tocaia incidental, houve o casal de moto, feliz e faceiro, o motorista até me deu um aceno. É que nem sempre as pessoas estão a cometer adultérios. Nada pude ver da pick-up insulfilmada que entrou logo depois da saída de um Uno de firma, daqueles com escada e tudo, certamente era o rapaz que conserta os ares condicionados, visto que ia solitário e na sua porta pude ler algo que terminava com “tec”. Passados os quase quinze minutos, dei-me conta que estava esperando no lugar errado. A mensagem no celular, aonde você está?, me trouxe a realidade. Sem saber, três minutos após a minha saída e a pedido do dono do estabelecimento, uma viatura da polícia chegou ao local para investigar o investigador casual, inadvertido, que já havia, para seu bem, partido.

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urGente…

O tempo urge. Estaciono meu carro e sigo para o prédio no qual dou aula. São sete e meia. Um aluno me aborda logo na saída do estacionamento. E ai, professor? Tudo bem? Tudo bem. Ele tem uma dúvida e anseia por saná-la. Eu tenho que bater o ponto. A angústia me toma logo cedo, sei que se atrasar no ponto, serei descontado. Sei que se parar para atender o aluno, me atrasarei. Devo deixar o aluno em suas dúvidas e cumprir com o protocolo do relógio de ponto? Devo atendê-lo? Afinal, meu ofício de mestre não é mais que um bater cartões? Ó dúvida. O tempo urge. Me acompanhe até o prédio, digo a ele. Vamos, peripatéticos, trocando ideias pelos corredores. De frente a sala dos professores, peço um instante, preciso entrar e registrar minha presença. Agora, suba comigo até o terceiro andar. Ele me acompanha aos tropeços, o caminho me é familiar, me é cotidiano. Ele explana suas dúvidas, eu as diluo a cada lance de escada vencido. Já em frente a sala de aula, ele me agradece. Aulas de corredores, uma de minhas especialidades. Noutro canto da cidade, Rogério segue em zigue-zagues pela rodovia. O tempo urge. Cada quilômetro tem ares de fórmula um. Os segundos dão lugar aos décimos de segundos. Vai, vai, vai! Raios, a toupeira no carro à frente reduziu diante da amarelidão do semáforo. Amarelou, Rogério teria avançado, reduzido a marcha e socado o pé no acelerador. O tempo urge. Depois de cumprido o ritual dos registros, sento-me à mesa para aguardar os alunos. É que o tempo urge de formas distintas. Para uma sala de aula, sete e quarenta pode bem ser oito e cinco. Bem, ao menos para os alunos. No trânsito, Rogério, esbaforido, maldiz o tráfego intenso. Teriam todos saído justamente ao mesmo tempo que ele? É que Rogério, assim como eu, tem um ponto a bater. O relógio, mais que o relojoeiro, dita as regras. Os ponteiros apontam-nos, julgam-nos. No tique-taque, no zigue-zague, Rogério, esbaforido, perde a prova. É que às vezes, sete e quarenta é sete e quarenta mesmo, sem choro, sem desculpas, sem piedade. Acordasse mais cedo, saísse mais cedo. O inferno, já dizia Sartre, são sempre os outros. Não levem a mal o meu colega professor, o que aplica a prova. Ele apenas reproduz o tique-taque, vive no zigue-zague, apontado, aponta. Regrado pelo ponto, passa a regrar a si e aos demais. O tempo urge. Cá na minha sala, o movimento de nádegas dormentes denunciam que estamos perto das nove e vinte, hora de partir. É que o relógio que nos cobra a entrada, nos empurra à saída. A fila anda. O tempo urge. No corredor, uma aluna me chama. Professor, perdi sua aula de ontem, posso tirar uma dúvida? Acompanhe-me, acompanhe-me, por favor. Peripatéticos, vamos eu e ela, trocando ideias. O tempo urge.

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Líquida ação…

Absortos, hoje em dia andam todos absortos com o brilho do cristal líquido. Tempos líquidos, dizem. Tempos em que as relações se liquefazem nos liquidificadores e nas liquidações. Absortos, voltados para si mesmos, alheios ao mundo vasto mundo. Dia desses, num desses momentos de absorção, caminhava eu por entre as fileiras de produtos do mercado. Olhos colados na tela luminosa do smartphone. Para os olhares distraídos, alheios ao meu microcosmo, mais um zumbi digital, desses que dá mais importância aos Apps que aos irmãos primatas superiores, os ditos antropóides. Enquanto isso, uma senhorinha que esconde com produtos químicos sofisticados a sua brancura capilar tece maus juízos sobre este jovem e desleixado zumbi digital que, na tela hipnótica, busca informações sobre os ataques nas Ramblas catalãs. É que neste meu mundo vasto mundo, calhou-me ter uma mãe importada. E sendo mamãe fino produto europeu, tenho lá nas terras do velho mundo alguns familiares. Mal sabe o senhor de bigode imponente, gravata de seda e ar de aristocrata, que junto da senhorinha trama comentários apocalípticos sobre a minha juventude perdida naquela tela satânica, que eu estou, naquele mesmo momento, lendo as postagens de parentes que dizem estar bem, apesar de todo o terror que a cidade de Barcelona vive naquele instante. Aliviado ao saber que entre os meus parentes tudo está bem, sigo na minha tarefa cotidiana de abastecer a casa com os itens em falta. Ao me lado, no corredor das guloseimas, uma garota de seus quinze ou dezesseis anos anda agilmente por entre gentes e carrinhos de compras, ainda que com os olhos absortos, colados na tela do seu smartphone. Ela digita freneticamente enquanto faz caras e bocas. Eu a observo anônimo. Com quem será que ela conversa? Terá parentes na mesma Catalunha que eu? Pelas caras e bocas, não. Ela sorri enquanto digita, vez ou outra morde os lábios como quem sente o calor adolescente das paqueras. Talvez seja um crush, talvez a BFF, tanto faz, lá no seu mundo vasto mundo, a vida pulula. Eu, cá no meu, agora estou de olho nas promoções do App do próprio mercado. O queijo gouda está com quarenta porcento de desconto pelo aplicativo. Um correr de dedos para ativar a promoção, uns poucos cálculos mentais e um belo e vigoroso naco de gouda vem para o carrinho. Ao longe, na fila preferencial, a senhorinha e o senhor bigodudo agora têm olhos para a menina que antes me chamara à atenção. Perdidos, todos perdidos, penso eu na fila dos caixas rápidos. Será o destino de toda uma geração a incompreensão de tantos e tantos mundos vastos mundos? Absorto em tais confabulações, alguém me toca o ombro. Uma outra senhorinha, também de cabelos brancos escondidos sob as químicas do corredor de cosméticos, de olho nos conteúdos do meu carrinho, me pergunta: esse é o queijo do aplicativo, moço? É sim. E é bom? É sim, se a senhora gostar de queijos. Sacando o seu smartphone da bolsa, com uma piscadinha de olhos, ligeira, líquida, a senhorinha pôs-se em marcha ao corredor dos laticínios. De olhos colados nos pixels cintilantes do smartphone, desliza os dedos sobre ela para garantir um belo naco de queijo gouda com quarenta porcento de desconto. Mais tarde, no grupo do Whatsapp da família, Vó Clementina posta a foto do queijo gouda com os dizeres: tá barato! tá gostoso.

Mundos, vastos mundos.

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