Volcano…

Durval achava que essas coisas só aconteciam nos filme. Filmes daqueles, de sessão da tarde. Daqueles do Jerry Lewis, do Steve Martin ou do Adam Sandler – a depender da sua idade, caro leitor. Naquela tarde Durval teria que entregar o trabalho final, um ensaio sobre as possibilidade de uma Educação para além do Capital. Foram três meses escrutinando a obra do Mészáros. Três meses de tortura, afinal, Durval era o mais fervoroso defensor de uma educação mercadológica. Caíra num Grupo de Trabalho marxista por um desses infortúnios de quem precisa cumprir, a qualquer custo, com os créditos e prazos para a defesa de sua dissertação. Intitulada “Educação 2.0: transformando velhas olarias em negócios inovadores”, sua dissertação era motivo de chacota entre os seus colegas e  professores do GT. Seu orientador já havia declarado: Durval, isso é suicídio acadêmico. Ignorando que remava contra a corrente materialista histórica, Durval reuniu forças e fez o ensaio de sua vida. Rebateu categoricamente todos os argumentos do velho húngaro e preparou-se para a peleja daquela tarde como um moinho de vento frente a dezenas de queixosos Quixotes. Faltando cinquenta minutos para as quatorze horas, Durval achou por bem forrar o estômago não com uma, mas três apetitosas empadas de frango da cantina da Dona Pompéia. Chegado a uma ardência, Durval não economizou no molho de pimenta, cuja receita secreta Dona Pompéia não revelava nem sob tortura.  Saciado e confiante nas palavras que diria durante a sua exposição, Durval palitava os dentes quando a primeira pontada fez tremer a banqueta na qual repousava o esqueleto. A segunda pontada foi derradeira. Em coisa de três ou quatro passos, Durval venceu os 50 metros que o separava do sanitário masculino. A terceira pontada já se fazia sentir nas entranhas quando Durval, pobre Durval, cometeu o erro mais básico de toda a história dos usos de sanitários: entrou, travou a porta, arriou as calças, deixou que a natureza seguisse seu curso e, depois cinco minutos de sucessivas erupções escatológicas, verificou que não havia papel higiênico. Enxugou o suor da testa na barra da camisa e, de forma calculada, moveu o quadril o suficiente para ver que o estrago provocado pelas apetitosas empadas de Dona Pompéia deixavam o Vesúvio no mesmo patamar de uma acne adolescente. Faltando vinte e cinco minutos para o início das apresentações, Durval percebeu que uma tentativa de vistoriar os demais compartimentos do sanitário em busca do rolo de papel sagrado teria como efeito colateral um rastro de lava pegajosa  – se é que vocês me entendem. Durval corria o risco que alguém entrasse no sanitário, coisa que certamente levaria o incauto cidadão a, no mínimo, intoxicação por gases letais. Tendo como única fonte de celulose aquelas quatro páginas do ensaio que vieram à reboque na corrida ao sanitário, Durval deixou uma lágrima escapar-lhe pelo olho esquerdo. Fez os cálculos necessários e compreendeu que seria impossível uma assepsia com base nas páginas do seu ensaio. Não havia tempo hábil para  imprimir uma nova cópia do mesmo antes das quatorze horas. A mochila repousava na mesa da cantina e dentro dela o pendrive com o arquivo do Word. A livraria ficava noutro bloco. Para ajudar, lembrou-se que gastara seus últimos tostões nas apetitosas empadas, o que o deixava só com as cuecas. Cuecas! Claro. Durval já considerava se valer da cueca samba-canção para o processo de assepsia quando se lembrou do bordado cuidadosamente feito por sua querida mãe, Dona Lavínia. Desde garoto, Durval tinha o nome bordado em todas as suas roupas. Já adulto, o hábito prosseguiu ao menos nas cuecas, único item do vestuário de Durval cuja aquisição que ainda estava sob a responsabilidade materna. Se a cueca fosse descoberta, seria praticamente uma dupla confissão. Sentiu que outra lágrima lhe escapava do olho esquerdo. Faltando sete minutos para as quatorze horas, num ato de desespero, arrancou a dentadas o bordado, rasgou a cueca em três e desfez o estrago. Meteu todas as provas materiais daquela história no saco da lixeira e deu-lhe um nó para que nenhum arqueólogo fosse lá bisbilhotar. Acionou a descarga e deixou a água correr mais do que qualquer ambientalista aprovaria. Saltou para fora do compartimento, lavou as mãos com os trezentos e quinze mililitros de sabonete líquido que restavam no dispensador. Repetiu o processo com os duzentos e trinta e oito mililitros de álcool gel e, com a sua melhor cara de nada, respirou fundo (o que foi uma péssima ideia). Saiu do sanitário meio tonto, deu a volta numa das colunas, cortou por detrás de umas mesas, saltou por uma pequena grade e, como se viesse do lado oposto ao que estava, recolheu sua mochila com um minuto de folga para as quatorze horas. Notou que alguém entrava a passos largos no sanitário e gelou. O ensaio! Meu deus, o ensaio! Na ânsia de livrar-se daquele pesadelo, havia deixado o ensaio sob a pia. Tremeu. Duas lágrimas escaparam-lhe, cada uma por um dos olhos. Aceitou o seu destino e subiu para a sala de aula. Sentou-se ao fundo. Eram duas e trinta e cinco quando o professor Peçanha entrou na sala. Alegou um contratempo de última hora para justificar seu atraso. Com cara abatida, dispensou todos e pediu-lhes que os ensaios fossem entregues na próxima semana, exceto o do Durval, o qual já havia lido e que, diante das circunstâncias, merecia nota dez.

#crônicasdeumterráqueo

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