Chega chegando…

Deu-lhe um tabefe no meio das fuças que o fez girar, como nos desenhos animados, duas vezes sobre os calcanhares. A técnica infalível que o amigo Gouveia o havia ensinado mostrou-se duplamente desastrosa: expulsou-o do Lajota’s e trincou-lhe o molar esquerdo. Mas, não foi essa a história contada na cadeira da dentista. Ali, enfeitiçado pelos olhos de esmeralda da jovem Marissol, atribuiu a causa do seu infortúnio odontológico a uma bela raquetada. Sabemos de longa data que Adolfo jamais pôs os pés numa quadra de tênis e que o mesmo sequer saberia diferenciar uma bola de pingue-pongue de uma bola de gude. Aquela era mais uma oportunidade para o exercício da sedução, arte na qual Adolfo, cinquenta e dois anos, divorciado há três, era aprendiz. Quando jovem, Adolfo viveu isolado da humanidade em numa estação de estudos climáticos na Antártida. Mentira! Mas era assim que Adolfo justificava a ausência de suas narrativas apimentadas sobre aventuras romântico-selvagens de um adolescente na efervescência dos hormônios. Logo na juventude, aos 20 anos, Adolfo casou-se com Juliana, a mulher que sorveu-lhe à canudinho trinta e dois anos da vida e, sem delongas, o abandonou dois dias antes do cruzeiro de bodas de sei lá o quê. Deixando de lado detalhes de sua infância, pois das criancinhas é o reino dos céus, Adolfo foi, talvez, o cara mais sem sal da face da Terra.  E assim estávamos, quando Gouveia apareceu na sua vida. Era uma tarde de outono e Adolfo fazia o seu jogging de todas as tardes na pista do Campolim. Outono? Me parece que era verão… Pois bem, pouco importa, afinal Adolfo inventou essa de jogging apenas para ver as coxas torneadas em calças legging e os seios apertados em tops de lycra. Corria exatos vinte metros e parava para longos alongamentos de rabo de olho que radiografavam os corpos fitness de meninas que bem poderiam ser suas filhas. Havia também as coroas. Tiazonas da mesma idade que Adolfo, com corpos recauchutados nas oficinas de crossfit que deixavam algumas novinhas no chinelo. Mas Adolfo sabia que, nessa idade e com aquelas curvas, suas contemporâneas eram doutoradas na arte de destruir corações incautos de adolescentes cinquentões como ele, coisa para a qual as jovenzinhas fitness, para o bem da espécie humana, ainda eram meras estagiárias. Chega chegando, disse o Gouveia. Adolfo não soube se era com ele. É, maluco, você! Chega chegando. Essa coisa de galanteios é do tempo do zagaia e já não funcionava nem com o zagaia – que, diga-se de passagem, nem era uma pessoa. Apesar do olhar lascivo e pinta de tarado, Adolfo era fã do Roberto, logo amante à moda antiga. Chegava nas moçoilas com galanteios e flores arrancadas dos canteiros do parque. Inspirava-se no J. G. de Araújo Jorge para recitar rimas românticas com a finesse de um Clark Gable. Tudo errado! Chega chegando, disse de novo o Gouveia, coisa que Adolfo interpretou como “mostra a chave da BMW e chama pra tomar uma água de côco na jacuzzi do apê em Maresias”. A morena de corpo escultural olhou para a chave do BMW ano 1998 com desdém, deu dez passos e, virando-se para Adolfo, piscou-lhe um olho enquanto um Jaguar F-só-deus-sabe-qual piscava as setas em resposta ao controle remoto. Porra, Adolfo! Essas minas tem carros desde os quatorze anos. Tu tem que chegar chegando! Saca só. Gouveia acercou-se de uma ruiva que Adolfo jurava que havia escorregado do Olimpo para aTerra por descuido dos deuses. De inicio ela revirou os olhos, mas Gouveia aproximou-se e sussurrou-lhe uma meia dúzia de palavras ao pé do ouvido. O sorriso que se seguiu foi uma das coisas mais espantosas para Adolfo. Ambos caminharam para o Fiat Uno 1.5 Turbo ano 1987 do Gouveia e sumiram pelas curvas da Raposo Tavares. Na tarde seguinte, Adolfo esquadrinhou toda a pista de caminhada do parque Campolim em busca do Gouveia. Nada. Encontrou-o três dias depois, inadvertidamente, no Lajota’s. Qual é, Gouveia? Como é que se faz? Chega chegando, Adolfo! Depois de algumas doses de Chivas, Gouveia deixou escapar um ou dois segredos. Adolfo, embebido de animo e uísque, partiu para a Louraça Belzebu feito um Exocet, e o resultado, já sabemos. Embriagado, desta vez, com o absinto daqueles olhos verdes, Adolfo respirou fundo. Enquanto Marissol dizia-lhe sobre os detalhes do tratamento de canal que seria necessário para restaurar o molar de Adolfo, este mentalizou as palavras do grande Gouveia: chega chegando. Ao longe, trombetas celestiais puderam se ouvir. Quando Marissol se debruçou para amarrar o babador no pescoço de Adolfo, este sussurrou-lhe uma meia dúzia de palavras ao pé do ouvido. Quatro e quinze da manhã, Deoclécio, porteiro do Edifício Sol e Mar, em Maresias, recebe a décima ligação de moradores incomodados com os ruídos selvagens vindos do apartamento do Adolfo. Pensou em discar o 608, mas conhecia Adolfo desde o seu primeiro verão como porteiro do edifício. Deoclécio tirou o interfone do gancho e se ajeitou para um doce cochilo.

#crônicasdeumterráqueo

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