Quem vai casar?

Sentou-se em frente a mesa do professor sem muita convicção. Professor, preciso te pedir algo. Pois pida, disse-lhe em um quase sorriso. Era seu costume falar certas palavras em português errado. Não por ignorância, mas por estratégia. É que ao proferir pobrema diante de um problema, a aura catedrática, muitas vezes inibidora de um diálogo mais fluído, evaporava-se em nuvens de descontração. Dizia ostra no lugar de outra, bão no lugar de bom. A faca era de dois legumes e o combinado, cãobinado. Tomate-ca-mente era automaticamente e, de trocadilho em trocadilho, de erro em erro, a comunicação se dava sem prejuízo. Fazia por graça, ainda que um ouvido ou outro, inadvertido, achasse um despautério professor falar assim. Então, professor, seu trabalho, aquele em grupo, que o senhor sorteou semana passada… As reticências, o olhar cabisbaixo e os vinte anos de sala de aula profetizavam o pedido de dispensa, restava saber o motivo, razão ou circunstância. Tô ligado, disse o professor para abreviar o suplício. Da lista de possibilidades, é sabido que a morte não se anuncia com semanas de antecedência, logo descartou o velório de alguma tia lá no interior do Paraná. Tamborilando os dedos sobre a mesa ao ritmo da marcha imperial, disparou. Quem vai casar? As sobrancelhas arqueadas e a luminosidade no rosto vieram seguidas de um sonoro eu. Eu, professor. Na sexta no civil, no mesmo cartório no qual sua futura esposa trabalha de recepcionista, logo pela manhã Sábado no religioso, para agradar a família dela, lá no interior do Paraná, na igreja matriz, bem a tardinha. Os trâmites para o casório já vinham de um ano antes. O aperto financeiro e a dificuldade de reunir toda a parentada fez com que a data coincidisse com a apresentação do trabalho da faculdade. É coisa do zodíaco, diziam-lhe os amigos solteiros. Antes evitar uma DP que afivelar-se nas coleiras do matrimônio. Sabiam que perderiam o goleiro das noites de terça para a futura esposa e o Master Chef. Já os familiares, agarrados à última esperança de finalmente ver-lhe casado, mandariam às favas o professor, tudo dentro das normas da ABNT, que fique claro. Segundo minha avó, disse-lhe, o homem nasce, cresce, fica bobo e casa. Pois é, professor… As reticências, novamente elas. O aluno esperava uma resposta. Era uma faca de dois legumes, o professor poderia dizer-lhe ema ema, cada um com seus pobrema. O professor sabia disso. A pausa dramática se estendeu por mais alguns segundos, o suficiente para uma gota de suor formar-se no canto esquerdo daquela têmpora universitária. Sem pobremas, meu caro. Trocamos com o grupo anterior e, tomatecamente, seu grupo fica para a ostra semana. Cãobinado? Oxi, professor. O alívio muscular podia ver-se em fluidas ondas sob a pele do rapaz. Desejou-lhe um bão casamento enquanto observava-o flanar dois centímetros acima do solo. De volta aos teclados do seu computador, à crônica que digitava quando fora interrompido pelo noivo atormentado, percebeu uma sombra diante de si. Antes que pudesse concluir a digitação desta linha, a sua frente, sem muita convicção, sentou-se outro aluno. Pida!

#crônicasdeumterráqueo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *