Quermesse…

A quermesse do bairro, em épocas juninas, trazia consigo o cheiro de pólvora. Como todos os garotos da rua, pelas manhãs de domingo íamos ao catecismo. Ouvíamos estórias dos tempos do zagaia. Numa delas, um cara barbudo saia distribuindo chutes e ponta-pés nos comerciantes do templo. Alguma coisa que ver como fazer negócios no entorno da igreja. Depois da catequese, íamos à missa. Mais estórias. Durante o resto do do domingo o protocolo era sempre o mesmo. Macarrão da mama, coca cola da mercearia do Mingo, pudim de leite da vó. Trapalhões, programa Silvio Santos. Repeteco do pudim de leite da vó. A noite, no entorno da igreja, toda sorte de barraquinhas vendiam guloseimas e diversões. Pesca, roleta, cuscuz, arroz-doce, quentão. Três quarteirões antes da igreja, numa minúscula lojinha mal iluminada, um arsenal de bombinhas, traques, busca-pés, rojões e biribinhas. Fogos caramuru não dá xabú, esse era o lema. Dos dez cruzeiros ganhos, cinco eram suficientes para encher os bolsos daqueles objetos do terror. Bolsos que poderiam por si só mandar para os ares umas tantas latinhas de extrato de tomares, tamanha era a quantidade de pólvora que neles ficava depositada. Munidos do pequeno arsenal bélico, nos embrenhávamos por entre os adultos. Uma rodinha, alguém acendia o isqueiro, a combustão do pavio dispersava a roda rapidamente. Três, dois, um. BUM. Jesus-Maria-José! O estouro sempre assustava as beatas compenetradas no giro da roleta. Algum adulto logo identificava os terroristas mirins apontando-nos o dedo seguido de palavras se só podiam dizer no lado de fora da igreja. Na periferia da festa, fuçávamos as latas de lixo em busca de módulos lunares. Uma “das fortes” era posicionada na guia de paralelepípedos. Sobre ela, uma lata de pomarola estrategicamente colocada de forma a absorver em seu interior a potência da explosão. Mais uma vez o isqueiro roubado do maço de cigarros de algum familiar entrava em ação. Três, dois, um. É, deu xabú! Desde a mais tenra idade já sabíamos o sentido da expressão propaganda enganosa. Pega outra. Aperta o fundo, pra garantir. Duas voltas de durex, para potencializar. Agora vai. Isqueiro, cadê o isqueiro. Ajeita a latinha. Três, dois, um. BUUUM. Feito engenheiros da Nasa, comemorávamos os talvez dois ou três metros de vertiginosa subida da lata de pomarola. Um pequeno estrondo para a humanidade, mas uma baita diversão para a molecada. Moleques lazarentos. Huston, temos um problema. A lata, na sua reentrada na atmosfera, atingiu a motoca de alguém. Correria. Como vietcongs, embrenhávamo-nos por debaixo das barracas, camuflados por toalhas de renda. Dissipado o quiprocó, juntávamo-nos na curva da escadaria de acesso à igreja para contabilizar o arsenal. Eu tenho três da forte e duas da fraca. Eu tenho duas fortes. Eu tenho quatro busca-pés e três da fraca. Enquanto as meninas prendadas distribuíam as prendas na barraca de pesca, pescávamos toda sorte de coisas para explodir. Tubo de plástico, lata de óleo, tijolo baiano, casca de banana. Os estouros se ouviam aqui e ali sempre seguidos de um resmungo, um reclamo, uma jura de que queimaríamos no fogo dos infernos. Para terminar, juntávamos as sobras, desmontávamos as bombinhas, fazendo com a pólvora finas linhas como nos filmes de espionagem. O cheiro de pólvora se misturava ao do quentão naquelas noites frias de junho.

#crônicasdeumterráqueo

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