Karência…

Meu insucesso escolar na infância e adolescência sempre esteve ligado a uma certa dissonância entre a instituição escolar e eu. A escola não fazia muito sentido, mas essa é uma interpretação do eu adulto, professor, depois de passar por duas licenciaturas e um mestrado. Lá, na longínqua década de 1980, eu apenas flanava por uma existência incompreendida. Não fui daqueles que aos quinze anos leu Sartre. Aos quinze anos eu sequer lia, nem mesmo o que a escola obrigava. Repetente em dois anos anteriores, na oitava série eu era o cavalão que, não fosse um pangaré, estaria completando o ensino médio. Eu era ruim em tudo, mas em matemática eu me superava. Naquela época eu não conhecia Descartes, ainda que o plano cartesiano lá estivesse nas malditas equações. Mal sabia eu que a razão poderia ser assolada, nublada, engrupida, tergiversada pelas artimanhas de um gênio do mal. Demônios que rondam nossas ideias, confundindo-nos e nos afastando da clareza do intelecto. Pois bem, na oitava série esse demônio tinha um nome: Karen. Um demônio de saias, Karen era um anjo esculpido em carne, ossos e cabelos new wave repicados em ondulatórias que faziam as parábolas das equações de segundo grau tão desinteressantes quanto as minhas aulas de Lógica. Quem em sã consciência iria dar trela para Dona Zulmira e o valor de delta quando Karen, conhecedora dos seus encantos sobre garotos introvertidos como eu, me dedicava zero vírgula zero vinte e cinco milésimos de segundo do seu olhar quarenta e três? Era pura perdição. Nas aulas de Língua Portuguesa eu até tentava prestar atenção, talvez na esperança de que o léxico pudesse irrigar a estiagem verbal provocada pela simples proximidade geográfica daquela angelical e demoníaca criatura. Em tempos em que o mundo das ideias de Platão nada significava no meu cérebro de pangaré, Karen era a pura manifestação platônica, meditações metafísicas dignas de um ser em constantes dúvidas clashinianas: should I stay or should I go. Elvis, The Pelvis, filósofo requebrante dos palcos do Rock and Roll já dizia, Its Now or Never? Pois bem, never. Jamais troquei com Karen mais que ois e tchaus pelos corredores tétricos do colégio. Finalmente concluída a oitava série, meus caminhos seguiram por outras searas. Fui para o ensino profissionalizante, a noite, onde a alma pueril de um garoto introvertido como eu teve de sair da caverna. O mundo se descortinou, ainda que a escola continuasse sem sentido. Muitos anos mais tarde, num dia qualquer dos anos 2000, num corredor de supermercado, encontrei Karen. Não a reconheci. Ela sim, me chamou com um psiu, você não é o Edgar? Do Santa? Assenti com a cabeça ainda vasculhando na memória quem seria aquela mulher. Trocamos algumas palavras sobre os bons tempos de colégio e cada qual seguiu seu caminho, ela para o corredor dos laticínios, eu para a seção de bebidas. No caixa, enquanto a atendente, minha ex-aluna, reclamava da semana de provas, a ficha caiu. Meu deus, a Karen! David Hume já havia me alertado, nossas memórias são ficções, histórias que contamos para nós mesmos.

#crônicasdeumterráqueo

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