Líquida ação…

Absortos, hoje em dia andam todos absortos com o brilho do cristal líquido. Tempos líquidos, dizem. Tempos em que as relações se liquefazem nos liquidificadores e nas liquidações. Absortos, voltados para si mesmos, alheios ao mundo vasto mundo. Dia desses, num desses momentos de absorção, caminhava eu por entre as fileiras de produtos do mercado. Olhos colados na tela luminosa do smartphone. Para os olhares distraídos, alheios ao meu microcosmo, mais um zumbi digital, desses que dá mais importância aos Apps que aos irmãos primatas superiores, os ditos antropóides. Enquanto isso, uma senhorinha que esconde com produtos químicos sofisticados a sua brancura capilar tece maus juízos sobre este jovem e desleixado zumbi digital que, na tela hipnótica, busca informações sobre os ataques nas Ramblas catalãs. É que neste meu mundo vasto mundo, calhou-me ter uma mãe importada. E sendo mamãe fino produto europeu, tenho lá nas terras do velho mundo alguns familiares. Mal sabe o senhor de bigode imponente, gravata de seda e ar de aristocrata, que junto da senhorinha trama comentários apocalípticos sobre a minha juventude perdida naquela tela satânica, que eu estou, naquele mesmo momento, lendo as postagens de parentes que dizem estar bem, apesar de todo o terror que a cidade de Barcelona vive naquele instante. Aliviado ao saber que entre os meus parentes tudo está bem, sigo na minha tarefa cotidiana de abastecer a casa com os itens em falta. Ao me lado, no corredor das guloseimas, uma garota de seus quinze ou dezesseis anos anda agilmente por entre gentes e carrinhos de compras, ainda que com os olhos absortos, colados na tela do seu smartphone. Ela digita freneticamente enquanto faz caras e bocas. Eu a observo anônimo. Com quem será que ela conversa? Terá parentes na mesma Catalunha que eu? Pelas caras e bocas, não. Ela sorri enquanto digita, vez ou outra morde os lábios como quem sente o calor adolescente das paqueras. Talvez seja um crush, talvez a BFF, tanto faz, lá no seu mundo vasto mundo, a vida pulula. Eu, cá no meu, agora estou de olho nas promoções do App do próprio mercado. O queijo gouda está com quarenta porcento de desconto pelo aplicativo. Um correr de dedos para ativar a promoção, uns poucos cálculos mentais e um belo e vigoroso naco de gouda vem para o carrinho. Ao longe, na fila preferencial, a senhorinha e o senhor bigodudo agora têm olhos para a menina que antes me chamara à atenção. Perdidos, todos perdidos, penso eu na fila dos caixas rápidos. Será o destino de toda uma geração a incompreensão de tantos e tantos mundos vastos mundos? Absorto em tais confabulações, alguém me toca o ombro. Uma outra senhorinha, também de cabelos brancos escondidos sob as químicas do corredor de cosméticos, de olho nos conteúdos do meu carrinho, me pergunta: esse é o queijo do aplicativo, moço? É sim. E é bom? É sim, se a senhora gostar de queijos. Sacando o seu smartphone da bolsa, com uma piscadinha de olhos, ligeira, líquida, a senhorinha pôs-se em marcha ao corredor dos laticínios. De olhos colados nos pixels cintilantes do smartphone, desliza os dedos sobre ela para garantir um belo naco de queijo gouda com quarenta porcento de desconto. Mais tarde, no grupo do Whatsapp da família, Vó Clementina posta a foto do queijo gouda com os dizeres: tá barato! tá gostoso.

Mundos, vastos mundos.

#crônicasdeumterráqueo

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